A Amazônia pelas imagens de Pedro Martinelli

Este texto busca discutir as imagens captadas pelas lentes analógicas do fotojornalista Pedro Martinelli, em seu livro “Amazônia – O Povo das Águas”. O trabalho do autor é considerado uma referência no que diz respeito às imagens jornalísticas da região, sobretudo porque possui uma vida dedicada a retratar aspectos da vida na Amazônia. Acreditamos que a análise imagética nos ajuda a compreender os símbolos implícitos nas mensagens e os discursos produzidos sobre e na região.

Ainda em 1970, quando pouco ou quase nada se sabia sobre a Amazônia, Pedro Martinelli participou da expedição dos irmãos Villas Bôas, que pretendia desbravar a Amazônia. Durante esse trabalho, o autor conseguiu fazer a primeira foto de um índio Kranhacãrore, cuja etnia nunca havia tido contato com o homem branco. A imagem ganhou vasto espaço na capa do jornal O Globo, onde Martinelli trabalhava, na época.

Embora o trabalho de Martinelli apresente um recorte, um olhar sobre aspectos da vida na Amazônia, o que mais chama a atenção mesmo é o “olhar estrangeiro” sobre a mais cobiçada área do planeta. Um não morador da Amazônia está imerso em uma realidade diferente dos grandes centros urbanos na expedição que percorreu os principais rios e cidades da região. Cenas cotidianas são retratadas com riqueza de detalhes, transportando-nos para a rotina da floresta. Aos poucos a narrativa da vida nos rios é contada e o processo de criação do fotógrafo (KOSSOY, 2000) ganha vida e expressão.

Paulista, da cidade de Santo André, o fotojornalista mostra em seu trabalho paisagens com rios, barcos amazônidas, animais silvestres, pores-do-sol e povos da região, numa estética, seja em preto e branco ou em colorido, que revela “o diferente”, “o espetacular”, “o exótico” da Amazônia. A princípio, o livro do autor parece apresentar “um primeiro olhar”, demonstrado nas imagens editadas em preto e branco. A Amazônia de Martinelli não é verde. Suas cores e sentidos chegam aos nossos olhos na maioria das vezes em preto e branco. Partindo de Joly (1996), que considera a interpretação das cores e formas da imagem antropológica, acreditamos que o autor dá uma oportunidade ao leitor de vislumbrar a região sob uma perspectiva diferenciada, fazendo “grifos” coloridos apenas em momentos pontuais da fotografia que retrata o “povo das águas”.

 

Nossa análise compreende a natureza em preto e branco do livro como linguagem específica que traduz um olhar do autor. Como na fotogenia (BARTHES, 2000), a mensagem conotada está na própria imagem, num primeiro momento nossa leitura nos leva a perceber a imagem desprovida da cor verde, como sinal de ruptura proposto pelo autor com um dos principais estereótipos aplicados à região, já que a cor verde e o nome Amazônia são ofertados não apenas como uma unidade simbólica ao nível dos fenômenos da comunicação. Mas sob a perspectiva da sociedade do espetáculo que vislumbra a atração pelo olhar, acreditamos, por mais paradoxal que pareça, que a espetacularização da imagem pode ser observada em uma das linguagens usadas pela fotografia, um recurso de edição, com o que está sendo representado pela cena e não pela fotografia em si.

Martine Joly (1996) destaca, em seu livro “Introdução à análise da imagem”, que “a imagem comunica e transmite mensagens”. Por essa razão, não se pode ignorar que as imagens em questão contribuíram de alguma forma para a construção do imaginário social sobre a Amazônia.

Por essa razão, não se pode perder de vista que as fotografias de Martinelli foram feitas no local, com equipamento fotográfico analógico, em 1970, para publicação no jornal O Globo. No entanto, a publicação em livro foi feita em 2000, por ocasião da comemoração dos 500 anos do Brasil. Diante dessa periodicidade, percebe-se que, mesmo após o transcurso de três décadas, prevaleceu o reforço dessa imagem exótica, selvagem e de que a Amazônia é o espaço onde se concentra apenas mata, bichos e isolamento e a vida humana se resume a um modo de vida “primitivo”. Todas essas características que dão contornos a um estereótipo sobre a Amazônia.

Segundo Dutra (2001), a Amazônia tem sido pautada na mídia a partir de noções pré-construídas, repetindo ou transformando estereótipos historicamente fabricados, fragmentariamente reintroduzidos sob formas sedutoras por meio de imagens e falas que reportam antigas visões, de modo especial aquelas que retratam a Amazônia como um lugar paradisíaco e, contraditoriamente, ao mesmo tempo inóspito. O autor também analisa o pouco destaque que se dá aos que nela habitam, afirmando que nas pautas da mídia, na Amazônia coexistiriam a exuberância física da natureza e a invisibilidade humana (DUTRA, 2001).

Um exemplo disso é a própria foto da capa do livro, que mostra a imagem “clássica” do estereótipo de Amazônia, que é uma paisagem com a floresta ao fundo, tendo um enorme rio em primeiro plano, com um barquinho e um homem simples remando.

Por essa razão, mesmo o fotojornalista tendo estado na região amazônica, pessoalmente, registrando os passos da expedição de Villas Bôas, não se pode afirmar que as imagens expressam a verdade, estatuto que, segundo Kossoy (2000) fazia parte do início da concepção que se tinha de fotografia.

Vale ressaltar que no livro de Martinelli, as fotografias vêm acompanhadas de textos-legenda, que narram, com detalhes, o contexto em que a imagem foi captada, sendo que o destaque no texto é sempre para os aspectos mais peculiares e rústicos da imagem retratada. Para Joly, a imagem possui uma ligação direta, uma dependência, em relação à palavra, ao texto. Ou seja, a autora defende a idéia de que a relação entre imagem e texto é de complementaridade.

 

Para Peter Burke (1994), que analisa a imagem partindo da perspectiva histórica, as inscrições (os textos) contribuem para a eficácia das imagens pois orientam o espectador sobre o modo de interpretar o que vêem. Portanto, para Burke, texto e imagem também se complementam e se reforçam.

Outra questão refere-se ao poder da mídia (BARTHES, 2000). Percebe-se que até hoje a imagem estereotipada e espetacularizada da Amazônia continua sendo reproduzida em seus produtos midiáticos. Um bom exemplo disso é a figura que mostra um homem simples que habita áreas de floresta da Amazônia (o “caboclo”) segurando um enorme peixe, como se tivesse medindo-o, comparando-o com o seu tamanho físico. Os discursos (texto, imagens fixas e vídeos, etc.) sobre a região permanecem, de forma hegemônica, dentro dessa linha do “exótico”. Isso pode ser constatado, com facilidade, não só nos jornais impressos, mas também nos telejornais e programas televisivos, como o “Globo Repórter” da TV Globo que, com frequência, exibe longas reportagens com imagens paradisíacas da região, ressaltando mata, rios e bichos.

 Nesses produtos midiáticos, incluindo o livro de Martinelli, não se verifica a presença de áreas urbanas, com prédios, asfalto, arquitetura moderna e outros aspectos políticos, econômicos e culturais da região. O povo das águas só existe (aparece) nesses discursos, em áreas de floresta e com modos “primitivos” (ou tradicionais) de vida. A presença da tecnologia é ignorada. No caso de Martinelli, a tecnologia aparece apenas em uma fotografia, onde mostra um aparelho de televisão e outro de som, colocados sobre uma bancada, como se fosse em um “altar tecnológico”, com destaque, na sala de uma casa rústica, de madeira, reforçando um contraste dessas tecnologias com o modo de vida (selvagem) amazônico.

Outra foto de Martinelli que chama bastante a atenção, sobretudo por ter sido publicada em forma colorida, no meio de dezenas em modo preto e branco, é a que mostra um macaco assado na brasa, com pele e tudo (inteiro, vivo). A foto mostra desde o momento em que ele é assado ainda vivo até ser descarnado – com destaque para o sangue presente na carne – e restar apenas a caveira do animal. A imagem forte e sangrenta só é um pouco amenizada ao se ler a legenda, explicando que “a carne do macaco é única que as índias grávidas podem comer”. O aspecto da crença indígena (outro aspecto exótico e espetacular) nos remete a uma reflexão sobre a cultura daquela etnia, o que nos leva a olhar de forma menos repugnante para as referidas fotografias.

Vida e morte captadas pelo olhar do fotojornalista. Imagens do sacrifício do macaco são seguidas pela imagem de rostos frágeis e olhares da infância que povoa a Amazônia retratada aqui. Um animal domesticado na floresta é transformado em brincadeira de criança.

Os peixes que servem de sustento para muitas famílias merecem destaque no trabalho de Pedro Martinelli. Na brasa improvisada, nas mãos do pescador ou nos barcos, o alimento farto para o povo das águas ocupa várias páginas do livro.

Martinelli chega à terra firme e agora capta a Amazônia que se movimenta em volta dos rios. A mandioca e os processos de consumo que complementam o cardápio de muitos moradores da floresta e ainda servem como moeda de troca é apresentada ao leitor pelas mãos de quem produz e consome o alimento.

Atemos-nos a análise dessas fotografias jornalísticas como representação imagética da Amazônia, dos povos das águas, como é intitulado o livro do autor. E dentro dessa perspectiva, cumpre-nos destacar que como representação imagética da região Amazônica, as fotografias de Martinelli fazem um relato incompleto e parcial, que não reconhece (não retrata) os aspectos urbanos, sociais, políticos, econômicos e culturais da região, o que reforça no leitorado uma visão parcial e estereotipada do que vem a ser a Amazônia.

 

Referências Bibliográficas:

 

BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios críticos III. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV/ Peter Burke; tradução, Maria Luiza X. de. A. Borges.- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

DUTRA, Manuel Sena . A Amazônia na TV: produção de sentido e o discurso da ecologia. In: Congresso Brasileiro de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2001, Campo Grande. Anais Intercom, 2001.

JOLY, Martine. Introdução à análise da Imagem. Campinas, SP: Papirus, 1996.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho: uma teoria da comunicação linear eem rede. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

 

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